quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Riacho




Se você fosse água, te botava pra ferver.
Te ebulia todo, só pra não me encher de você.
Te tirava de acolá e te botava ao meu redor,
Gasoso que só.

Vazava tristeza pelo cantinho do olho
Se você ameaçasse escapar pela janela,
Atrás de formar nuvem com outro vapor qualquer.
Sentiria o seu todo em mim todo
E, quando você se esgueirasse pelas frestas,
Misturava minhas lágrimas nesse restinho de você
Que sobrou no meu rosto.
Não só pra te ter em mim,
Mas também pra me misturar em você.

Te dava um olhar gelado, te esfriava,
E te fazia chover.
Não te escorria, nem filtrava,
Porque te quero poluído de mim,
Assim que eu me molhar de você. 

Ou, quer saber?

Te prendia numa garrafinha apenas,
E te sorvia aos poucos.
Que é pra te ver morrer de prazer.

O bule e o bolo


 Ele era o bule e ela era o bolo.
Era um belo bule, feito com balaiagem.
Ela, bolo belicoso: bolo de boleiro.
Mas o bule brigava com o bolo
E o bolo brigava com o bule.
Quando era o boleiro a beber – bradava o bolo –
O bule botava bebida barata.
Botar bebida barata, eu? – o bule beliscava o bolo –
Você que é bolinho, bolo de belisco.
E era uma baderna.
Botavam a bodega abaixo.

Mas quando brandia o breu
E o boa-noite baixava lá na baixada,
O bule bolinava o bolo
E o bolo besuntava o bule.
O bule pensava que era sim um boníssimo bolo,
E o bolo bebericava a bebida barata que o boleiro não bebeu.

O que o bule e o bolo não sabiam é que,
Sem a bebida, o bolo era uma birosca boba,
E a bebida barata do bule só ia bem com um bom bolo.
E, bem, é por isso que em briga de bule e bolo, não se bole.