Moro num país tropical, abençoado por Deus e preconceituoso por natureza. Sim, o preconceito no Brasil já escancarou a porta do armário há alguns anos, mas na última década, ele saiu de lá, bateu a porta e não há perspectivas de que volte. Mas isso não é culpa de ninguém especificamente. Pelo contrário, é o resultado de uma ideologia: essa coisa tão coletiva e etérea ao mesmo tempo.
Na falta de uma causa política pela qual lutar, um estandarte para erguer, a juventude atual (e não digo de forma nostálgica, pois eu também me enquadro nela), criou o seu próprio parâmetro de ideais: a ideologia da imagem. Nenhum sutiã foi para a fogueira, os caras-pintadas ganharam o aval das marcas mais consagradas de maquiagem e a luta contra a anorexia finalmente morreu de fome. Na verdade, descobriu-se que, em algum grau, todas essas ideias eram ilusórias (e que ideia não é?) e, agora, buscamos preencher esse buraco com uma constante afirmação da nossa personalidade.
É possível fazer um discurso extremamente elaborado sem sequer abrir a boca. Minha roupa diz quem eu sou, meus óculos dizem como vejo o mundo, meu cabelo diz como quero ser visto, minha bolsa expressa minhas ideologias e minhas tatuagens afirmam a minha personalidade. Tudo isso já é de praxe, com a singela diferença de que, atualmente, o que eu penso não diz nada sobre mim. De alguma forma, enfatizada pelas redes sociais, nós viramos tudo aquilo que parecemos ser. De que adianta citar inúmeras referências culturais se eu me visto como “um coxinha”? Pra que me preocupar em compartilhar um som interessante com as pessoas, se meus traços físicos dizem claramente que sou um nordestino amante de axé?
É fato, nós somos o que somos: nossa cor, timbre, cabelo e até nossas roupas. Mas também somos nossos gostos e preferências, nosso humor, tristezas, alegrias, experiências e vivências. Somos o rico humilde e o pobre orgulhoso. Somos o loiro analfabeto e o negro pós-graduado. Somos o gordo bonito e o magro feio. Mas, o mais importante de tudo, é que somos a pretensa voz de uma geração: uma geração afônica. Andamos por aí com corpos retos e pálidos, roupas fashion e o indispensável acessório da discriminação a tiracolo. A diversidade saiu de moda, agora ela ocupa o lugar que o preconceito ocupava no armário. O julgamento prematuro venceu e, grande parte das vezes, o mais primário de todos: o preconceito racial. Isso, em país repleto de nêgas chamadas Tereza.

Discordo. Alguns dos meus melhores amigos são pretos viados judeus cadeirantes nascidos no nordeste.
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