sábado, 26 de maio de 2012

Manual de sobrevivência para internautas


A internet (ou interweb) é um ambiente ermo e selvagem onde só os fortes sobrevivem. Sem o cuidado necessário, você pode ser devorado pelo mimimismo, cair na vala do esquecimento ou pior, virar meme. Mas seguindo esse passo-a-passo, você alcançará com glória os anais do mundo virtual. Peça sempre a ajuda de um adulto.



Pareça culto


Esse é o princípio básico da interweb: parecer ou padecer. Em vez de passar anos estudando ou horas se informando sobre assuntos de interesse coletivo, use alguns atalhos básicos que resolverão seu problema muito mais rápido.
O segredo é copiar tudo o que uma pessoa que parece culta faz. Provavelmente essa pessoa copia outra pessoa que parece culta e, talvez, na final da corrente, esteja uma pessoa que seja realmente culta. Não conte com isso, mas não ligue muito também. A maioria das pessoas está preocupada em parecer que entendeu o que você postou. Essa é a magia da coisa.

Use linguagem de internet


É imprescindível que você entenda e faça uso do linguajar interwébico. Ele é basicamente uma mistura da língua que você usava aos dois anos de idade com a época em que você usou aparelho móvel e teve sérios problemas de dicção.
Liberte-se de tudo o que você aprendeu nas aulas de português. Quem sabe a diferença entre “ç” e “ss” não sobrevive cinco minutos com o mouse na mão. Seja original e cirúrgico nos seus erros de digitação e nunca atribua mérito a ninguém pelos termos que você usa. Não importa de onde veio a ideia, ela é de quem gritar mais alto.
O mais importante de tudo é considerar o seu jeito de falar único. Por mais que ele seja clichezento e leite-com-pera, ele é seu e inimitável. Não se compare com ninguém, a não ser que esse alguém seja uma personalidade da interweb. Saiba que comparação é como um dragão usando uma calça roxa: se você não fizer direito, não faz sentido nenhum. 


Tenha muitos seguidores

A melhor forma de arrumar seguidores é sendo uma mulher gostosa com uma legging branca. Portanto, invista em uma legging branca. Caso você não seja uma mulher gostosa, há sempre a possibilidade de mudar de sexo e pedir algumas seringas de silicone industrial para o seu amigo travesti.
Agora, se você não tem um amigo travesti que arranje silicone, só lhe resta usar a insistência. Adicione pessoas famosas e influentes em todas as redes sociais. Depois disso, peça de modo pedante e persistente que elas te adicionem de volta. Use frases como: “Tô seguino, segue de volta”, “Te curto. Vamos ser amigo?”, “Me retuita?”. Não costuma funcionar muito, mas ninguém pode dizer que você não tentou. Na dúvida, deixe a legging reservada.

Desperte o tiozão do pavê que há em você

Se tem duas coisas que jamais esgotam, são elas: a sabedoria de um internauta e a graça de uma piada. Cada vez que você conta, ela fica mais engraçada. Estão aí para comprovar isso os quadrinhos de “como minha mãe me vê, como meus amigos me veem, como o escambal me vê”. Repita mesmo, vá na fé. Se a pessoa não ri, é porque ela não entendeu.  Aí só tem uma coisa a se fazer, que é complementar a piada com um comentário explicativo. Na vida real, isso é o equivalente a cutucar a pessoa com o cotovelo e dizer “hã, hã, sacou, heim, pavê, tipo pra ver, sacou, hã”.

Nada se copia, tudo se RT

Nessa jornada é possível que você tenha que deixar alguns conceitos antigos para trás. Um deles é a noção. Só gente sem noção se dá bem na internet.
Sabe aquela vontade que bate de citar Nietzsche? Nem eu. Aprenda a ceder aos seus ímpetos de ler e replicar besteira. Ela está aí aos montes. Você é apenas uma molécula de chorume no oceano de merda que é a internet. Se você tem critério, é possível encontrar muita coisa de qualidade, mas o melhor amigo do critério é o anonimato.
Você quer ser criterioso ou famoso? Então sente esse traseiro e comece a compartilhar todo o tipo de besteira que encontrar. Memes não se fazem sozinhos e, de repente, você pode acabar sendo o coautor do sucesso de algum cantor fanho, alguma reportagem mundo-cão ou algum dançarino gay estereotipado. Usar boas referências é como dançar o créu: tem que ter disposição e tem que ter habilidade.

Com essas e mais algumas dicas, como criar eventos aleatórios, fazer protestos de sofá e reafirmar à exaustão a sua condição de ciclista e salvador do mundo, você estará preparado para enfrentar os perigos que te reserva a WORLD WILD WEB.
Mas saiba que essas dicas de sobrevivência se resumem à internet. Não tente isso em casa, ou você poderá ser visto como um completo imbecil. E, além do mais, pra que vida offline? Ninguém aqui aguenta dez minutos de convivência com uma pessoa real mesmo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O torto retrato falado da nova onda nos trópicos



Moro num país tropical, abençoado por Deus e preconceituoso por natureza. Sim, o preconceito no Brasil já escancarou a porta do armário há alguns anos, mas na última década, ele saiu de lá, bateu a porta e não há perspectivas de que volte. Mas isso não é culpa de ninguém especificamente. Pelo contrário, é o resultado de uma ideologia: essa coisa tão coletiva e etérea ao mesmo tempo.

Na falta de uma causa política pela qual lutar, um estandarte para erguer, a juventude atual (e não digo de forma nostálgica, pois eu também me enquadro nela), criou o seu próprio parâmetro de ideais: a ideologia da imagem. Nenhum sutiã foi para a fogueira, os caras-pintadas ganharam o aval das marcas mais consagradas de maquiagem e a luta contra a anorexia finalmente morreu de fome. Na verdade, descobriu-se que, em algum grau, todas essas ideias eram ilusórias (e que ideia não é?) e, agora, buscamos preencher esse buraco com uma constante afirmação da nossa personalidade.

 É possível fazer um discurso extremamente elaborado sem sequer abrir a boca. Minha roupa diz quem eu sou, meus óculos dizem como vejo o mundo, meu cabelo diz como quero ser visto, minha bolsa expressa minhas ideologias e minhas tatuagens afirmam a minha personalidade. Tudo isso já é de praxe, com a singela diferença de que, atualmente, o que eu penso não diz nada sobre mim. De alguma forma, enfatizada pelas redes sociais, nós viramos tudo aquilo que parecemos ser. De que adianta citar inúmeras referências culturais se eu me visto como “um coxinha”? Pra que me preocupar em compartilhar um som interessante com as pessoas, se meus traços físicos dizem claramente que sou um nordestino amante de axé?

É fato, nós somos o que somos: nossa cor, timbre, cabelo e até nossas roupas. Mas também somos nossos gostos e preferências, nosso humor, tristezas, alegrias, experiências e vivências. Somos o rico humilde e o pobre orgulhoso. Somos o loiro analfabeto e o negro pós-graduado. Somos o gordo bonito e o magro feio. Mas, o mais importante de tudo, é que somos a pretensa voz de uma geração: uma geração afônica. Andamos por aí com corpos retos e pálidos, roupas fashion e o indispensável acessório da discriminação a tiracolo. A diversidade saiu de moda, agora ela ocupa o lugar que o preconceito ocupava no armário. O julgamento prematuro venceu e, grande parte das vezes, o mais primário de todos: o preconceito racial. Isso, em país repleto de nêgas chamadas Tereza.