Todo mundo quer um preconceito pra chamar de seu. Já ser repreendido por isso ninguém aguenta. Pessoa alguma quer sofrer na pele as consequências desse embate social recente contra o preconceito. Mas isso não faz de nós menos preconceituosos. Calar a boca e “gerar oportunidades” é o clichê do clichê da vida em conjunto. Dar emprego a um ex-presidiário mostra que sou compreensivo, mas mantê-lo sem a vigilância adequada faz de mim um idiota. Comprar a causa de um homossexual chega a ser edificante, mas entender a sua postura mais sensível diante do mundo é condescendência.
O preconceito está enraizado em nós, e de maneira cada vez mais hipócrita. O que antes era compelido com segregação, hoje é compelido com humor e retórica. E ai de quem não aderir. É muito comum ouvir alguém falar que não tem nada contra gay, “mas precisa falar desse jeito?”. A resposta é não, não precisa. Ninguém precisa falar do jeito que fala, andar do jeito que anda, se vestir do jeito que se veste. Mas, ao mesmo tempo, todo mundo tem o direito de fazer o que quiser. A prática contradiz a teoria. Hoje, qualquer comentário desumano é permitido, desde que seja feito em tom de humor. É como se uma risada invalidasse a crueldade implícita em uma análise, em grande parte das vezes, sincera. Mas isso não é qualidade de um grupo específico de preconceituosos. Todos nós fazemos isso, de uma forma ou de outra. O preconceito é nato do ser humano. Ele é, desde a nossa estreia em solo terrestre, uma das únicas formas de lidar com um inimigo invencível: a falta de tempo.
Nós não temos tempo para criar um conceito sobre tudo. “Conhecer antes de segregar” é uma das frases de efeito mais hipócritas e superficiais que a era moderna estampou no seu caderno de discursos. Encaremos a realidade: nós não temos tempo de conhecer a nós mesmos, nossa família, nossos amigos... que dirá quem não nos é próximo. Isso, por outro lado, não acaba com a nossa capacidade de julgar. Quando nos simpatizamos com alguém e escolhemos essa pessoa para uma conversa, automaticamente estamos nos antipatizando mais com o restante. Não há como escapar. Tentar isso é como virar aqueles meio-hippies pretensamente desapegados, mas com apego demais neles mesmos para se relacionar com outras pessoas.
A retórica moderna vem tentando fantasiar cada vez mais o preconceito. Pegam-no espantalho, vestem-no com roupas luxuosas e vendem-no como príncipe. Tratar o seu porteiro mal virou uma ação contra a superpopulação regional, desconfiar da higiene básica de alguém por causa da cor da pele é apreço por limpeza, criticar os hábitos de algumas lésbicas é lutar contra a extinção da feminilidade. Todo mundo quer se justificar, e, uma vez que o preconceito foi argumentado, extingue-se a qualidade de vítima daquele que o sofreu. Se pensaram que você era criminoso porque tem tatuagem, poxa vida, você há de convir que muitas gangues usam tatuagem como forma de identificação - tivesse pensado nisso antes de fazer. E por aí vai...
Se não há fuga, o que nos resta é lidar com isso da forma que conseguimos. Você invariavelmente será preconceituoso, portanto, ocupe-se em escolher os seus preconceitos. Ser injusto é inevitável, mas ser infame é opcional. Basta lembrar que a mesma pessoa que você diz ter “cara de sujinho” pode ser a que você paga para limpar o seu banheiro.

Uma mulher brilhante, lindíssima, inteligente, culta, que admiro muito. Tá de parabéns!
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