quarta-feira, 27 de julho de 2011

Um preconceito para chamar de meu



Todo mundo quer um preconceito pra chamar de seu. Já ser repreendido por isso ninguém aguenta. Pessoa alguma quer sofrer na pele as consequências desse embate social recente contra o preconceito. Mas isso não faz de nós menos preconceituosos. Calar a boca e “gerar oportunidades” é o clichê do clichê da vida em conjunto. Dar emprego a um ex-presidiário mostra que sou compreensivo, mas mantê-lo sem a vigilância adequada faz de mim um idiota. Comprar a causa de um homossexual chega a ser edificante, mas entender a sua postura mais sensível diante do mundo é condescendência. 

O preconceito está enraizado em nós, e de maneira cada vez mais hipócrita. O que antes era compelido com segregação, hoje é compelido com humor e retórica. E ai de quem não aderir. É muito comum ouvir alguém falar que não tem nada contra gay, “mas precisa falar desse jeito?”. A resposta é não, não precisa. Ninguém precisa falar do jeito que fala, andar do jeito que anda, se vestir do jeito que se veste. Mas, ao mesmo tempo, todo mundo tem o direito de fazer o que quiser.  A prática contradiz a teoria. Hoje, qualquer comentário desumano é permitido, desde que seja feito em tom de humor. É como se uma risada invalidasse a crueldade implícita em uma análise, em grande parte das vezes, sincera. Mas isso não é qualidade de um grupo específico de preconceituosos. Todos nós fazemos isso, de uma forma ou de outra. O preconceito é nato do ser humano. Ele é, desde a nossa estreia em solo terrestre, uma das únicas formas de lidar com um inimigo invencível: a falta de tempo. 

Nós não temos tempo para criar um conceito sobre tudo. “Conhecer antes de segregar” é uma das frases de efeito mais hipócritas e superficiais que a era moderna estampou no seu caderno de discursos. Encaremos a realidade: nós não temos tempo de conhecer a nós mesmos, nossa família, nossos amigos... que dirá quem não nos é próximo. Isso, por outro lado, não acaba com a nossa capacidade de julgar. Quando nos simpatizamos com alguém e escolhemos essa pessoa para uma conversa, automaticamente estamos nos antipatizando mais com o restante. Não há como escapar. Tentar isso é como virar aqueles meio-hippies pretensamente desapegados, mas com apego demais neles mesmos para se relacionar com outras pessoas.

A retórica moderna vem tentando fantasiar cada vez mais o preconceito. Pegam-no espantalho, vestem-no com roupas luxuosas e vendem-no como príncipe. Tratar o seu porteiro mal virou uma ação contra a superpopulação regional, desconfiar da higiene básica de alguém por causa da cor da pele é apreço por limpeza, criticar os hábitos de algumas lésbicas é lutar contra a extinção da feminilidade. Todo mundo quer se justificar, e, uma vez que o preconceito foi argumentado, extingue-se a qualidade de vítima daquele que o sofreu. Se pensaram que você era criminoso porque tem tatuagem, poxa vida, você há de convir que muitas gangues usam tatuagem como forma de identificação  - tivesse pensado nisso antes de fazer. E por aí vai...

Se não há fuga, o que nos resta é lidar com isso da forma que conseguimos. Você invariavelmente será preconceituoso, portanto, ocupe-se em escolher os seus preconceitos. Ser injusto é inevitável, mas ser infame é opcional. Basta lembrar que a mesma pessoa que você diz ter “cara de sujinho” pode ser a que você paga para limpar o seu banheiro.

Um comentário:

  1. Uma mulher brilhante, lindíssima, inteligente, culta, que admiro muito. Tá de parabéns!

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