É fácil falar de zona de segurança quando se está em um trabalho, uma faculdade, uma amizade ou um relacionamento médio. A moda agora é mostrar aos outros a “arte da guerra” e levantar a espada contra o vilão do conformismo. É inadmissível que alguém da sua família ou algum amigo seu esteja feliz sendo um “ninguém”. A ordem é mandar que a pessoa renasça das cinzas do conforto e se lance em um voo de glória rumo a...um título. Mas a dúvida que não entra em pauta é: qual é a verdadeira utilidade de um título?
Na época dos nossos pais (ou dos nossos avós no caso de alguns) existiam apenas alguns estandartes que você poderia levantar para zelar pelo bom nome do seu clã: advogado, engenheiro, médico, doutor (de qualquer categoria) e esposa (de marido bem-sucedido). Mais tarde surgiu o executivo, aquele indivíduo de terno escuro e pasta na mão que ganha muito dinheiro – bom - executando. Se você atingisse um desses patamares, parabéns, a sua vida estava ganha. Você já teria chegado ao ápice da sua existência e nenhuma surpresa (des)agradável o atingiria pelo caminho. Resumindo: você teria alcançado a sua zona de conforto. Agora você poderia deitar-se em seu divã no Olimpo aproveitando as uvas maduras servidas diretamente na sua boca.
Agora tudo mudou. Existem milhares profissões que a seguir, dezenas de condições civis e milhões de cursos preparatórios para que você consiga um bom... título. O fato é que ainda hoje nada como um bom título para garantir um tratamento diferenciado. Não que o mérito deva ser “desmerecido”, mas quantos aspectos ricos de análise não se perdem embaixo da máscara de um bom título? Milhares de fatores podem levar um homem inteligente a não cursar o mestrado, existem muitos cultos que sequer uma vez foram a um vernissage e, convenhamos, ninguém precisa de um periscópio na mão para salvar vidas. No caminho contrário, já vi inúmeros mestres medíocres e bem relacionados, bem como médicos cuja única vida que salvam é a deles mesmos.
Ainda assim precisamos de uma forma de nos diferenciar, de justificar a nossa zona de conforto. No final das contas é isso o que todo mundo quer: ter o direito de se acomodar. Dinheiro, cursos e estratagemas sociais são apenas as ferramentas que te dão o passe livre de justificar a sua estagnação. Ora ou outra alguém tentará te despertar do seu sono tranquilo perguntando “você sabe onde poderia chegar?” e, nessas horas, só um título te dará o poder de encerrar o assunto do ápice de seus anais pseudo-vitoriosos: “você sabe com quem está falando?”.

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