Um dos subprodutos da cultura estadunidense é a paranoia competitiva. Só quem estrela a lista dos melhores (ou piores) em alguma coisa sabe a angústia que é ficar em segundo lugar. Segundo lugar “é média”, e ninguém quer ser medíocre. Isso estendido para o nosso dia-a-dia é uma pressão ainda mais constante. É preferível ser o quinto colocado no vestibular a ser o segundo e nutrir a sensação constante de que você QUASE chegou lá. Também não é fácil ser superado por alguém em um relacionamento.
Vamos combinar, levar um fora nunca foi fácil, mas hoje o senso de competição vem dando a vestimenta do derrotismo ao que antes era uma etapa inevitável da vida. Hoje, em vez de sofrermos porque a pessoa amada não nos quer, sofremos porque ela preferiu outro alguém e você ficou em “segundo lugar”. Esse é um sintoma do egoísmo acelerado. O amor e o objeto amado deixaram de ser o foco das nossas atenções. Agora o que importa é o sucesso da empreitada. Não importa se você não é amado de volta, se constatar que vocês simplesmente “não funcionam” juntos, não importa sequer se, durante o processo, você percebeu que já não quer mais essa pessoa tanto assim. Tudo o que importa é alcançar o objetivo a que você se propôs. Estamos em uma era dúbia, onde o vício pelo sucesso do mundo corporativo foi absorvido por nossas vidas pessoais. Ao mesmo tempo em que estamos mais liberais e tolerantes com algumas diferenças, buscamos a perfeição em absolutamente tudo. Não há mais problema em ser gay, desde que você seja o gay mais gay da marcha-purpurinada-do-arco-íris. Não há problema em ser negro, desde que você seja o negro com ancestrais mais originalmente negros e o mais orgulhoso de suas origens. Não há problema em sofrer bullying, desde que você seja o maior depositário de bolas de papel banhadas a cuspe de toda escola. Não há problema você ser infeliz no relacionamento, desde que você conquiste a pessoa que você quer.
Eu acompanho constantemente o sofrimento dos amigos que levam o fora e acham que a pessoa amada foi ROUBADA por outro alguém. É perceptível a obsessão pelo “outro”, “o outro cara”, “o Ricardão”, “a vagabunda”, “a rampeira” (sim, ainda há quem use essa). O que muitos esquecem é de aplicar a variável humana a esse senso de competição. Não é porque a pessoa que você gosta preferiu “outro” que esse outro é melhor que você. Talvez seja, talvez não. Talvez a pessoa prefira alguém mais inteligente, talvez tenha algum tipo de complexo e o “outro” simplesmente lembre alguém da infância. A verdade é que você nunca irá saber, portanto, pelo menos nesse caso, é melhor desistir. Desista, não há competição aqui, você não ficou em segundo lugar. Não dê o poder incondicional de juiz ao seu objeto de conquista. As preferências dele (ou dela) não estão ao alcance do deu entendimento. Cedo ou tarde você irá perceber que o juiz da sua felicidade é você mesmo, e que o sucesso só é verdadeiro quando lutamos pelas causas certas.

Como já dizia o Abba: The winner takes it all... ou não.
ResponderExcluirPerfeito! E, aliado a isso tudo (algo que também é originário da tal "cultura estadunidense"), tem a mania das pessoas de "absolutar" qualquer aspecto da vida, achando que tudo sempre será como é agora. Felicidade ou frustração eterna.
ResponderExcluirEu ainda uso "rampeira", hahahahaha!
"Desista, não há competição aqui, você não ficou em segundo lugar. Não dê o poder incondicional de juiz ao seu objeto de conquista."
ResponderExcluirgostei um tanto disso. o jeito é seguir em frente, por mais óbvio que isso seja.
Nossa, levei uns tapinhas no decorrer do texto..rs
ResponderExcluirUma vez fiz questão de fazer aquele tradicional "flashback com ex" só pra que a garota atual fosse chifrada, como um gosto de vingança por estar no "meu lugar"...bizarro!..rs