quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Riacho




Se você fosse água, te botava pra ferver.
Te ebulia todo, só pra não me encher de você.
Te tirava de acolá e te botava ao meu redor,
Gasoso que só.

Vazava tristeza pelo cantinho do olho
Se você ameaçasse escapar pela janela,
Atrás de formar nuvem com outro vapor qualquer.
Sentiria o seu todo em mim todo
E, quando você se esgueirasse pelas frestas,
Misturava minhas lágrimas nesse restinho de você
Que sobrou no meu rosto.
Não só pra te ter em mim,
Mas também pra me misturar em você.

Te dava um olhar gelado, te esfriava,
E te fazia chover.
Não te escorria, nem filtrava,
Porque te quero poluído de mim,
Assim que eu me molhar de você. 

Ou, quer saber?

Te prendia numa garrafinha apenas,
E te sorvia aos poucos.
Que é pra te ver morrer de prazer.

O bule e o bolo


 Ele era o bule e ela era o bolo.
Era um belo bule, feito com balaiagem.
Ela, bolo belicoso: bolo de boleiro.
Mas o bule brigava com o bolo
E o bolo brigava com o bule.
Quando era o boleiro a beber – bradava o bolo –
O bule botava bebida barata.
Botar bebida barata, eu? – o bule beliscava o bolo –
Você que é bolinho, bolo de belisco.
E era uma baderna.
Botavam a bodega abaixo.

Mas quando brandia o breu
E o boa-noite baixava lá na baixada,
O bule bolinava o bolo
E o bolo besuntava o bule.
O bule pensava que era sim um boníssimo bolo,
E o bolo bebericava a bebida barata que o boleiro não bebeu.

O que o bule e o bolo não sabiam é que,
Sem a bebida, o bolo era uma birosca boba,
E a bebida barata do bule só ia bem com um bom bolo.
E, bem, é por isso que em briga de bule e bolo, não se bole.

sábado, 26 de maio de 2012

Manual de sobrevivência para internautas


A internet (ou interweb) é um ambiente ermo e selvagem onde só os fortes sobrevivem. Sem o cuidado necessário, você pode ser devorado pelo mimimismo, cair na vala do esquecimento ou pior, virar meme. Mas seguindo esse passo-a-passo, você alcançará com glória os anais do mundo virtual. Peça sempre a ajuda de um adulto.



Pareça culto


Esse é o princípio básico da interweb: parecer ou padecer. Em vez de passar anos estudando ou horas se informando sobre assuntos de interesse coletivo, use alguns atalhos básicos que resolverão seu problema muito mais rápido.
O segredo é copiar tudo o que uma pessoa que parece culta faz. Provavelmente essa pessoa copia outra pessoa que parece culta e, talvez, na final da corrente, esteja uma pessoa que seja realmente culta. Não conte com isso, mas não ligue muito também. A maioria das pessoas está preocupada em parecer que entendeu o que você postou. Essa é a magia da coisa.

Use linguagem de internet


É imprescindível que você entenda e faça uso do linguajar interwébico. Ele é basicamente uma mistura da língua que você usava aos dois anos de idade com a época em que você usou aparelho móvel e teve sérios problemas de dicção.
Liberte-se de tudo o que você aprendeu nas aulas de português. Quem sabe a diferença entre “ç” e “ss” não sobrevive cinco minutos com o mouse na mão. Seja original e cirúrgico nos seus erros de digitação e nunca atribua mérito a ninguém pelos termos que você usa. Não importa de onde veio a ideia, ela é de quem gritar mais alto.
O mais importante de tudo é considerar o seu jeito de falar único. Por mais que ele seja clichezento e leite-com-pera, ele é seu e inimitável. Não se compare com ninguém, a não ser que esse alguém seja uma personalidade da interweb. Saiba que comparação é como um dragão usando uma calça roxa: se você não fizer direito, não faz sentido nenhum. 


Tenha muitos seguidores

A melhor forma de arrumar seguidores é sendo uma mulher gostosa com uma legging branca. Portanto, invista em uma legging branca. Caso você não seja uma mulher gostosa, há sempre a possibilidade de mudar de sexo e pedir algumas seringas de silicone industrial para o seu amigo travesti.
Agora, se você não tem um amigo travesti que arranje silicone, só lhe resta usar a insistência. Adicione pessoas famosas e influentes em todas as redes sociais. Depois disso, peça de modo pedante e persistente que elas te adicionem de volta. Use frases como: “Tô seguino, segue de volta”, “Te curto. Vamos ser amigo?”, “Me retuita?”. Não costuma funcionar muito, mas ninguém pode dizer que você não tentou. Na dúvida, deixe a legging reservada.

Desperte o tiozão do pavê que há em você

Se tem duas coisas que jamais esgotam, são elas: a sabedoria de um internauta e a graça de uma piada. Cada vez que você conta, ela fica mais engraçada. Estão aí para comprovar isso os quadrinhos de “como minha mãe me vê, como meus amigos me veem, como o escambal me vê”. Repita mesmo, vá na fé. Se a pessoa não ri, é porque ela não entendeu.  Aí só tem uma coisa a se fazer, que é complementar a piada com um comentário explicativo. Na vida real, isso é o equivalente a cutucar a pessoa com o cotovelo e dizer “hã, hã, sacou, heim, pavê, tipo pra ver, sacou, hã”.

Nada se copia, tudo se RT

Nessa jornada é possível que você tenha que deixar alguns conceitos antigos para trás. Um deles é a noção. Só gente sem noção se dá bem na internet.
Sabe aquela vontade que bate de citar Nietzsche? Nem eu. Aprenda a ceder aos seus ímpetos de ler e replicar besteira. Ela está aí aos montes. Você é apenas uma molécula de chorume no oceano de merda que é a internet. Se você tem critério, é possível encontrar muita coisa de qualidade, mas o melhor amigo do critério é o anonimato.
Você quer ser criterioso ou famoso? Então sente esse traseiro e comece a compartilhar todo o tipo de besteira que encontrar. Memes não se fazem sozinhos e, de repente, você pode acabar sendo o coautor do sucesso de algum cantor fanho, alguma reportagem mundo-cão ou algum dançarino gay estereotipado. Usar boas referências é como dançar o créu: tem que ter disposição e tem que ter habilidade.

Com essas e mais algumas dicas, como criar eventos aleatórios, fazer protestos de sofá e reafirmar à exaustão a sua condição de ciclista e salvador do mundo, você estará preparado para enfrentar os perigos que te reserva a WORLD WILD WEB.
Mas saiba que essas dicas de sobrevivência se resumem à internet. Não tente isso em casa, ou você poderá ser visto como um completo imbecil. E, além do mais, pra que vida offline? Ninguém aqui aguenta dez minutos de convivência com uma pessoa real mesmo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O torto retrato falado da nova onda nos trópicos



Moro num país tropical, abençoado por Deus e preconceituoso por natureza. Sim, o preconceito no Brasil já escancarou a porta do armário há alguns anos, mas na última década, ele saiu de lá, bateu a porta e não há perspectivas de que volte. Mas isso não é culpa de ninguém especificamente. Pelo contrário, é o resultado de uma ideologia: essa coisa tão coletiva e etérea ao mesmo tempo.

Na falta de uma causa política pela qual lutar, um estandarte para erguer, a juventude atual (e não digo de forma nostálgica, pois eu também me enquadro nela), criou o seu próprio parâmetro de ideais: a ideologia da imagem. Nenhum sutiã foi para a fogueira, os caras-pintadas ganharam o aval das marcas mais consagradas de maquiagem e a luta contra a anorexia finalmente morreu de fome. Na verdade, descobriu-se que, em algum grau, todas essas ideias eram ilusórias (e que ideia não é?) e, agora, buscamos preencher esse buraco com uma constante afirmação da nossa personalidade.

 É possível fazer um discurso extremamente elaborado sem sequer abrir a boca. Minha roupa diz quem eu sou, meus óculos dizem como vejo o mundo, meu cabelo diz como quero ser visto, minha bolsa expressa minhas ideologias e minhas tatuagens afirmam a minha personalidade. Tudo isso já é de praxe, com a singela diferença de que, atualmente, o que eu penso não diz nada sobre mim. De alguma forma, enfatizada pelas redes sociais, nós viramos tudo aquilo que parecemos ser. De que adianta citar inúmeras referências culturais se eu me visto como “um coxinha”? Pra que me preocupar em compartilhar um som interessante com as pessoas, se meus traços físicos dizem claramente que sou um nordestino amante de axé?

É fato, nós somos o que somos: nossa cor, timbre, cabelo e até nossas roupas. Mas também somos nossos gostos e preferências, nosso humor, tristezas, alegrias, experiências e vivências. Somos o rico humilde e o pobre orgulhoso. Somos o loiro analfabeto e o negro pós-graduado. Somos o gordo bonito e o magro feio. Mas, o mais importante de tudo, é que somos a pretensa voz de uma geração: uma geração afônica. Andamos por aí com corpos retos e pálidos, roupas fashion e o indispensável acessório da discriminação a tiracolo. A diversidade saiu de moda, agora ela ocupa o lugar que o preconceito ocupava no armário. O julgamento prematuro venceu e, grande parte das vezes, o mais primário de todos: o preconceito racial. Isso, em país repleto de nêgas chamadas Tereza.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Deixa eu ser fofa, PORRA



O romantismo está na ITU e, cuidado, é virótico. A vergonha não é mais restrita, é encorajada. Estar apaixonado é colocar seus sentimentos à mercê de outra pessoa, é descarrilhar. Mas ninguém mais quer perder o controle, ou a ilusão dele. O interessante é ser completamente independente, dono da sua própria vida. Entretanto a independência não existe. O que existe é um senso de responsabilidade exacerbado, ou, no outro extremo, arrogância e mesquinhez. Seja qual for a justificativa, a causa é uma só: medo. 

Que vivemos na era do medo isso é fato indiscutível, mas até que ponto esse medo afeta a nossa vida ainda é ponto a ser muito discutido. Aparentemente não existem freios. Do medo de perecermos sob a lâmina de uma espada passamos ao medo de sofrermos algum acidente que nos invalide de alguma maneira. Desse passamos para o medo de sermos roubados, depois difamados, depois ofendidos. Agora temos medo de nos magoar, e isso anda nos transformando em androides blindados contra qualquer forma de sentimento. O curioso é que o medo de perder uma relação intensa é exatamente o que nos impede de começar uma. Nos últimos anos viemos adicionando aos nossos relacionamentos amorosos um ingrediente muito séptico: controle. Tudo é séptico agora. Nossas relações são controladas, nossas amizades têm limites claros pré-estabelecidos, nossas comidas são cozidas em água mineral a uma temperatura adequada. Misture tudo isso e você tem a receita clínica de um mundo totalmente sem graça. Minha amiga Anita tem uma ótima definição para pessoas assim: paletas de bege. É exatamente isso que acontece: estamos perdendo nossa cor.

Realmente, nem tudo é um mar de rosas, azuis e lilases. Uma carta de amor pode ser queimada ou, pior, não respondida. Vários buquês de flores vão parar na lixeira todos os dias, incontáveis “eu te amo” não são respondidos à altura e, independente de quantos presentes que você comprar para a pessoa amada, pode ser que nunca receba nada em troca. Só o que nos resta é erguer a cabeça e admitir para si mesmo que, ora bolas, não é só quem recebe uma declaração que está ganhando algo. Será que realmente nunca paramos pra pensar no valor de um frio na barriga, da satisfação de procurar algo que te lembre a pessoa amada, ou mesmo daquelas tardes de domingo ociosas em que você passa olhando pro teto com um sorriso bobo, imaginando se agradou ou não? Antes de chegar nos tons mais escuros existe toda uma gama de cores, estampas e brilhos que podemos atingir. Há quem prefira jogar o solvente do medo nisso tudo e viver uma vida equilibrada e séptica. Eu escolho as declarações, os abraços e as pieguices, mesmo que um sorriso possa facilmente se transformar em lágrima. Prefiro o descontrole, e do jeito Anita de ser: quanto mais colorido, melhor.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Um preconceito para chamar de meu



Todo mundo quer um preconceito pra chamar de seu. Já ser repreendido por isso ninguém aguenta. Pessoa alguma quer sofrer na pele as consequências desse embate social recente contra o preconceito. Mas isso não faz de nós menos preconceituosos. Calar a boca e “gerar oportunidades” é o clichê do clichê da vida em conjunto. Dar emprego a um ex-presidiário mostra que sou compreensivo, mas mantê-lo sem a vigilância adequada faz de mim um idiota. Comprar a causa de um homossexual chega a ser edificante, mas entender a sua postura mais sensível diante do mundo é condescendência. 

O preconceito está enraizado em nós, e de maneira cada vez mais hipócrita. O que antes era compelido com segregação, hoje é compelido com humor e retórica. E ai de quem não aderir. É muito comum ouvir alguém falar que não tem nada contra gay, “mas precisa falar desse jeito?”. A resposta é não, não precisa. Ninguém precisa falar do jeito que fala, andar do jeito que anda, se vestir do jeito que se veste. Mas, ao mesmo tempo, todo mundo tem o direito de fazer o que quiser.  A prática contradiz a teoria. Hoje, qualquer comentário desumano é permitido, desde que seja feito em tom de humor. É como se uma risada invalidasse a crueldade implícita em uma análise, em grande parte das vezes, sincera. Mas isso não é qualidade de um grupo específico de preconceituosos. Todos nós fazemos isso, de uma forma ou de outra. O preconceito é nato do ser humano. Ele é, desde a nossa estreia em solo terrestre, uma das únicas formas de lidar com um inimigo invencível: a falta de tempo. 

Nós não temos tempo para criar um conceito sobre tudo. “Conhecer antes de segregar” é uma das frases de efeito mais hipócritas e superficiais que a era moderna estampou no seu caderno de discursos. Encaremos a realidade: nós não temos tempo de conhecer a nós mesmos, nossa família, nossos amigos... que dirá quem não nos é próximo. Isso, por outro lado, não acaba com a nossa capacidade de julgar. Quando nos simpatizamos com alguém e escolhemos essa pessoa para uma conversa, automaticamente estamos nos antipatizando mais com o restante. Não há como escapar. Tentar isso é como virar aqueles meio-hippies pretensamente desapegados, mas com apego demais neles mesmos para se relacionar com outras pessoas.

A retórica moderna vem tentando fantasiar cada vez mais o preconceito. Pegam-no espantalho, vestem-no com roupas luxuosas e vendem-no como príncipe. Tratar o seu porteiro mal virou uma ação contra a superpopulação regional, desconfiar da higiene básica de alguém por causa da cor da pele é apreço por limpeza, criticar os hábitos de algumas lésbicas é lutar contra a extinção da feminilidade. Todo mundo quer se justificar, e, uma vez que o preconceito foi argumentado, extingue-se a qualidade de vítima daquele que o sofreu. Se pensaram que você era criminoso porque tem tatuagem, poxa vida, você há de convir que muitas gangues usam tatuagem como forma de identificação  - tivesse pensado nisso antes de fazer. E por aí vai...

Se não há fuga, o que nos resta é lidar com isso da forma que conseguimos. Você invariavelmente será preconceituoso, portanto, ocupe-se em escolher os seus preconceitos. Ser injusto é inevitável, mas ser infame é opcional. Basta lembrar que a mesma pessoa que você diz ter “cara de sujinho” pode ser a que você paga para limpar o seu banheiro.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sabe com quem está falando?! Ainda bem.



É fácil falar de zona de segurança quando se está em um trabalho, uma faculdade, uma amizade ou um relacionamento médio. A moda agora é mostrar aos outros a “arte da guerra” e levantar a espada contra o vilão do conformismo. É inadmissível que alguém da sua família ou algum amigo seu esteja feliz sendo um “ninguém”. A ordem é mandar que a pessoa renasça das cinzas do conforto e se lance em um voo de glória rumo a...um título. Mas a dúvida que não entra em pauta é: qual é a verdadeira utilidade de um título?

Na época dos nossos pais (ou dos nossos avós no caso de alguns) existiam apenas alguns estandartes que você poderia levantar para zelar pelo bom nome do seu clã: advogado, engenheiro, médico, doutor (de qualquer categoria) e esposa (de marido bem-sucedido). Mais tarde surgiu o executivo, aquele indivíduo de terno escuro e pasta na mão que ganha muito dinheiro – bom - executando. Se você atingisse um desses patamares, parabéns, a sua vida estava ganha. Você já teria chegado ao ápice da sua existência e nenhuma surpresa (des)agradável o atingiria pelo caminho. Resumindo: você teria alcançado a sua zona de conforto. Agora você poderia deitar-se em seu divã no Olimpo aproveitando as uvas maduras servidas diretamente na sua boca.

Agora tudo mudou. Existem milhares profissões que a seguir, dezenas de condições civis e milhões de cursos preparatórios para que você consiga um bom... título. O fato é que ainda hoje nada como um bom título para garantir um tratamento diferenciado. Não que o mérito deva ser “desmerecido”, mas quantos aspectos ricos de análise não se perdem embaixo da máscara de um bom título? Milhares de fatores podem levar um homem inteligente a não cursar o mestrado, existem muitos cultos que sequer uma vez foram a um vernissage e, convenhamos, ninguém precisa de um periscópio na mão para salvar vidas. No caminho contrário, já vi inúmeros mestres medíocres e bem relacionados, bem como médicos cuja única vida que salvam é a deles mesmos. 

Ainda assim precisamos de uma forma de nos diferenciar, de justificar a nossa zona de conforto. No final das contas é isso o que todo mundo quer: ter o direito de se acomodar. Dinheiro, cursos e estratagemas sociais são apenas as ferramentas que te dão o passe livre de justificar a sua estagnação. Ora ou outra alguém tentará te despertar do seu sono tranquilo perguntando “você sabe onde poderia chegar?” e, nessas horas, só um título te dará o poder de encerrar o assunto do ápice de seus anais pseudo-vitoriosos: “você sabe com quem está falando?”.